O desporto sempre esteve intimamente ligado a formas educativas, culturais e formativas, o que sempre nos levou a considerá-lo uma escola de virtudes. Então como é possível acontecerem no mesmo comportamentos de violência?

Não podemos atribuir só à ânsia desmedida da vitória ou à mercantilização do desporto a existência destas ocorrências…

Ao longo da filogénese da espécie humana constatamos a presença constante de duas componentes: a competição e a violência. Constatamo-las da caça ao desporto moderno, do circo romano ao desporto olímpico, do desporto amador – aquele dos tempos de ócio – ao desporto profissional – aquele dos tempos do negócio.

Nesta filogénese é também dado assente que as garras se transformaram em unhas e os crimes de sangue foram substituídos pelos crimes de colarinho branco. O homem, na busca da harmonia e convivência em sociedade, foi criando regras e regulamentos para viver em sociedade e foi criando códigos para a justiça ser igualmente aplicada, tendo os indivíduos de respeitar as leis por medo de sanções ou de serem reprovados moralmente pelos seus pares e por se sentirem culpados à posteriori da sua desobediência a esses códigos. E também criou as sanções…

A predisposição genética para comportamentos de violência, inscrita no ADN do mesmo, proveniente da sobrevivência onde se acorria à fuga ou ao ataque perante uma ameaça imediata, supera por vezes os valores morais do indivíduo e a sua aprendizagem social.

A serotonina e a dopamina desempenham também um papel importante na ocorrência destes comportamentos. Logo, não podemos fazer avaliações olhando apenas para os campos educativo e social, mas temos também de olhar para o campo biológico. Se a situação (dependendo esta do grupo, do espaço e da actividade em si) e o papel desempenhado pelo indivíduo no momento é determinante, tal como o seu status, não é menos importante a sua herança genética e os processos químicos que se desenvolvem no seu organismo.

Verificamos então que o homem é vítima (produto) de transmissões ao longo de um processo evolutivo tal como de circunstâncias do momento. E se, através da razão, não salva as suas circunstâncias, não se salva a si mesmo (como nos disse Ortega y Gasset).

Em “O Desporto debaixo de fogo – entre valores e perversidades” (2018, Lisboa, Prime Books), no treino e na competição, onde podemos constatar que a violência no desporto não é mais do que o reflexo da violência na própria sociedade e onde também podemos verificar que a violência no desporto se pode reflectir na violência na própria sociedade. Segundo vários especialistas das Ciências do Desporto são aí dissecadas as causas dos comportamentos de violência no desporto e apresentados inúmeros exemplos que mostram diferentes tipologias dos mesmos.

Em 2010, o ciclista espanhol Carlos Barredo agrediu o português Rui Costa, no final da sexta etapa da Volta a França. Na Volta a Portugal, em 2014, na sexta etapa, o espanhol Vicente de Mateos, da Louletano – Dunas Douradas, e o dinamarquês Asbjorn Kragh, da Christina Watches, já depois de terem cortado a meta envolveram-se em agressões mútuas.

Em 2017 realçamos quatro casos (não serão demais?): 1º – O ciclista ucraniano Andriy Grivko agrediu Marcel Kittel na Volta ao Dubai; 2º – O ciclista espanhol Javier Moreno agrediu o italiano Diego Rosa na quarta etapa da Volta a Itália; 3º – Na Volta a França, Peter Sagan provocou a queda de Mark Cavendish com uma cotovelada, sendo expulso da mesma; 4º – Wang Xin e a equipa chinesa Keyi Look foram excluídos da Volta a Hainan, no sul da China, após agressões a membros de uma equipa suíça.

Na Volta a França em 2018, Gianni Moscon, da Sky, foi expulso da prova  após ter agredido Elie Gesbert, da Fortuneo Samsic, logo no primeiro quilómetro da décima quinta etapa.

Até à década de 70 defendia-se que o desporto possuía efeitos catárticos – uma forma de se aprender a controlar a agressividade e as emoções, graças a personalidades célebres: Sigmund Freud – o fundador da psicanálise –, Konrad Lorenz e Bertrand Russell – ambos galardoados com o prémio Nobel –, e Desmond Morris, autor de “O Macaco Nu” e “A Tribo do Futebol”. A partir da década de 80 a investigação científica veio a mostrar que afinal o desporto até promove e ensina a agressividade e a violência, provado em numerosos estudos.

Haverá casos de comportamentos de violência na BTT? Talvez os leitores deste blog consigam melhor esclarecer a autor destas linhas…

Atletas, competidores ou desportistas desejosos de alcançar a vitória mesmo que não seja a qualquer preço estão submetidos à condição de poderem recorrer a comportamentos de violência porque o desporto não existe sem a vitória e sem a derrota. Mais o estão quando a pretendem alcançar sem olhar a meios. Treinadores bem formados e interessados em formar seres humanos estão sujeitos ao mesmo. Treinadores interessados só em ganhar, aniquilar e destruir de certeza que recorrerão à violência…

Será possível um desporto sem violência? A resposta é declaradamente NÃO!

4 COMENTÁRIOS

  1. Sagan não derrubou Cavendish. Na verdade, cavendish posicionou seu guidão por dentro do guidão de Sagan, e caiu sozinho. Isso ficou claro nas outras imagens. Pra variar, cavendish não pediu desculpas.

  2. Treta. E não compreendo a base deste artigo. Que o ciclismo teve e talvez ainda tenha doping, aceito. E deve ser combatido. Agora violência? É dos desportos com mais respeito entre os intervenientes.

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