TransPortugal Europcar Race 2018 – Etapa 8

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O algarismo oito é pleno de simbolismo em culturas tão díspares quanto a europeia, a africana ou a asiática. Do oito diz-se que simboliza o equilíbrio cósmico, entre a terra e o céu, o que não é bom, nem mau, mas justo ou ainda, por não ter princípio, nem fim, o que é eterno ou que não tem limites. Oito é também o número de etapas da TRANSPORTUGAL EUROPCAR RACE, pelo que a oitava marca o dia decisivo, aquele que ninguém esquece.

Como sempre, a oitava etapa realiza-se num domingo que este ano foi também o dia 13 de maio. Foi em 13 de maio de 2017 que três crianças afirmaram ter visto e falado com Nossa Senhora, perto de uma azinheira, na Cova da Iria, em Fátima. O Santuário de Fátima, que comemorou os 100 anos das alegadas aparições em 2017, é hoje local de peregrinação de católicos do mundo inteiro pelo que, uma vez mais, neste domingo, milhares de pessoas acorreram ao local. A 13 de maio de 1967, nos Países Baixos, nasceu um rapaz a quem chamaram Rob. Não é mundialmente conhecido, nem se lhe conhecem feitos extraordinários, mas dele dizem que é “o gajo mais porreiro de sempre” ou “uma das nossas pessoas favoritas no planeta” pelo que o mínimo a fazer era oferecer-lhe um bolo de aniversário. Mas aguardemos.

Em Monchique, a manhã estava solarenga, mas fresca. Às 9h, o primeiro a partir foi o sénior Robin Willard (CA)-322, após o habitual beijinho de despedida da sua mulher. Aos poucos, os demais chegaram ao local que rapidamente se encheu de cor e entusiasmo. Foi ocasião para os últimos preparativos, fotos de grupo, fotos de óculos escuros, caras e caretas. Patti (722) iniciou o seu vídeo diário, entrevistando o marido Al (723). Os atletas foram então partindo em grupos, de acordo com os respetivos handicaps. Jeannie Bomford (ZA)-765 afirmou: “sinto-me um coelho, hoje”, pois sabia que iria ser ferozmente perseguida, e assim foi. A partida oficial registou-se às 10h, com a saída do último grupo.

Muito mais acontece antes, durante e após as partidas. Há muito que alguns membros do staff se posicionaram nos postos de controlo. O catering realiza as compras diárias, para assegurar fruta fresca e tomate à chegada, clássicos dos pic-nics da prova, juntamente com as saladas frias de feijão-frade com atum e ovo, ou de grão com cavala, entre outras iguarias. As estruturas andam sempre mais à pele: é preciso acabar as partidas para desmontar e seguir para montar meta. São pouco mais de 3h para tanto que há a fazer e todo o tempo é pouco. Infelizmente, o Inverno causou grande acumular de pedra na praia pelo que a meta teve de ser montada 200m antes do sítio habitual, num plano mais elevado, mas ainda com vista sobre o mar, em Sagres. A tarde fez-se ventosa, com rajadas de norte, a frustrar expetativas de um banho de mar, mas a ajudar bastante os atletas nos últimos 35km do percurso.

Sem surpresas, Pedro Simas (PT)-296 (Europcar e Fundo iMM-Laço: A Caminho da Cura) cruzou a meta em primeiro lugar, às 13h24m59s. Jeannie Bomford (ZA)-765 foi a segunda a chegar. Inesperadamente, a cerca de 30 metros da meta, Jeannie parou e voltou atrás para abraçar o staff que se encontrava à beira da estrada. Só então se dirigiu à meta, graciosa e sorridente, como sempre. O brasileiro João Urbano Dias (BR)-718 arrematou o terceiro lugar da etapa, entrando em Sagres tão rápido que nem a sua mulher o reconhecia. Os seguintes a chegar foram Monica Glover (ZA)-739, Martin Dreyer (ZA)-708 e José Lima de Almeida (PT)-756. Os mais jovens Ricardo Carvalho (PT)-319, Andrej Rakow (ZA)-650 e Manuel Melo (PT)-667 chegaram juntos, seguidos de Kristof Hemeryck (BE)-726 que ficou em 10º na etapa. 84 atletas completaram a etapa antes do tempo de fecho, às 16h31m. À sua espera encontraram família, amigos e alguns fãs, além de muita cerveja e alegria.

Pelas 17h seguiu-se para o hotel, com vista ao embalamento das bicicletas, entretanto lavadas pelo staff, e preparativos para o jantar e cerimónia.

O vencedor da prova foi naturalmente Pedro Simas (PT)-296 (Europcar e Fundo iMM-Laço: A Caminho da Cura), também vencedor de todas as etapas. Jeannie Bomford (ZA)-765 (Biogen) obteve o 2º lugar, seguida de Manuel Melo (PT)-667 (Pedras Biker’S Team) em 3º. O 4º foi Ricardo Carvalho (PT)-319 (Europcar), o 5º José Lima de Almeida (PT)-756 (360º Bike-Trail/Solférias), o 6º João Urbano Dias (BR)-718 (Aaz Team), a 7ª foi Monica Glover (ZA)-739, o 8º foi Francisco Carneiro (PT)-262 (Europcar), o 9º Martin Dreyer (ZA)-708 (Biogen) e o 10º Jaco Ferreira (ZA)-703 (Pretoria Express).

Relativamente à presença feminina na prova, apenas Patricia Iverson (US)-722 não completou todas as etapas, em virtude da queda na Serra da Estrela, ficando por isso em 75º lugar. Kathi Menziger (CH)-646 ficou em 70º, Ursula Gassmann (CH)-747 em 68º, Kathryn Robinson(ZA)-711 (Biogen) em 36º e Jill Cederholm (US)-762 (KHUL) em 12º. Como referido, Jeannie e Mónica encontram-se no grupo dos dez primeiros classificados da prova.

Como é tradição na TransPortugal, todos os atletas são nomeados e chamados na cerimónia final. O japonês Toru Watanabe -153 foi levado em braços para receber finalmente o seu jersey de finalista, após 5 tentativas. Muitos conseguiram mais do que as próprias expetativas. Foi o caso dos suecos Peter Bergegardh -742 e Joakim Schaaf – 743, que se iniciaram no BTT apenas em fevereiro deste ano. Em março Joakim partiu a clavícula direita mas apresentou-se em prova. Quase a desistir na Serra da Estrela, Joakim foi incentivado a seguir pelo vassoura, Tiago Lages. Joakim percebeu o seu potencial, fazendo um tremendo e impressionante esforço até ao fim. Adorados por todos, os suíços Kathi e Felix (646 e 647) foram aplaudidos de pé e o neerlandês Rob Wijnbergen (NL)-729 recebeu a sua jersey juntamente com bolo de aniversário e velas, ao som de uns sentidos e fortes “Parabéns a Você”.

Bem regado e alegre, o jantar foi o preâmbulo da festa rija que se seguiu no Pau de Pita. Foi então que a “vingança sueca” se abateu sobre todos, com destaque para staff, um inglês menos cauteloso e o único representante do País de Gales, o nosso querido Chris. “Flor, não me deixes sair à noite logo, nem beber shots, por favor”, sábias e inúteis palavras proferidas ao raiar do dia. De nada valeram. Os suecos bombardeavam com rajadas sequenciais de shots, numa cadência impossível de acompanhar. A música estava boa, um tanto metalizada e datada, mas ao gosto de todos. O pior foi a manhã seguinte, e mais não se pode contar.

A corrida acabou. Alguns continuaram a viajar, outros regressaram a casa para abraçar os seus filhos, o seu cão, o seu gato, a mulher ou o marido. Há com certeza que tenha retomado o emprego dos seus sonhos, ou o trabalho que odeiam. Outros ainda poderão nem trabalhar. Muitos estarão felizes, outros um tanto em baixo. Há quem viva dias normais e quem esteja a passar por um momento difícil. A cada um a sua história e as suas lutas. Mas juntos vivemos estes dez dias, estas oito etapas. O número oito, o da força, determinação e prosperidade. Oito, o número atómico do oxigénio, elemento essencial à vida.

Texto: Florbela Pires
Fotos: Pedro Cardoso

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