TransPortugal Europcar Race 2018 – Etapa 6

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O Ministério dos Andares Idiotas (no original “Ministry of Silly Walks”) dos Monty Python é um dos meus sketches favoritos de sempre. Quem ainda não viu, faça-o assim que possível. Este sketch, que explora a capacidade de criação de novas formas de andar, deveria constar da formação obrigatória de qualquer ciclista.

Mais cedo ou mais tarde, o amante das duas rodas experimentará a chamada sensação de “ter um andar novo”. As possibilidades são muitas, especialmente se lhes juntarmos o efeito causado pelos sapatos de ciclismo. Há que aceitar: depois de uma longa jornada em cima do selim, um andar idiota é apenas uma das muitas consequências.

Mas a capacidade de adotar andares idiotas tem grandes virtualidades, sendo um ótimo exercício para praticar com as crianças, ao qual se pode juntar o “jogo do óbvio” que consiste em repetir à exaustão, mas com palavras diferentes, as frases corriqueiras do dia-a-dia. Por exemplo, um “vamos almoçar fora” passará a “vamos ingerir alimentos num estabelecimento comercial”, podendo a família dirigir-se ao local praticando os andares mais originais de que for capaz.

Tal como as formas de andar, também as vozes, olhares e sorrisos podem assumir formas idiotas. É uma questão de ir tentando.

O que nos leva ao segundo tema do dia: diversidade. Diria que a diferença torna tudo mais interessante. Acaso serão as flores e os frutos todos idênticos? Evidentemente que não. Por tudo isto, kudos à Eurovisão pelo cancelamento da parceria com a emissora que censurou a exibição irlandesa por conter uma cena de dança espelhando uma relação homossexual. A universalidade e a inclusão são valores essenciais da Eurovisão que visa também celebrar a diversidade através da música. Muito bem!

A diversidade (e os andares idiotas) têm imenso que ver com a TRANSPORTUGAL EUROPCAR RACE. Depois de 6 intensos e longos dias, atletas e staff já se conhecem pelos nomes. Sabe-se um pouco mais de cada um e é já possível identificar pequenas taras e manias. Por exemplo, o italiano Verzella Raffaele (IT)-379 prima pela sua voz baixa e tranquila e sorriso sereno, Christopher Hewings (UK)-504 é dono de um fantástico sentido de humor e adora comezainas.

Francisco Carneiro (PT)-262 dá tudo por tudo em cada etapa, cruzando as metas no limite da sanidade, o sueco Johan Liljefors (SE)-659 sente-se mais forte e mais feliz, os suíços Reto Denzler (CH)-731 e Sterf Markus (CH)-732 deliram com as descidas desvairadas, os trajetos técnicos e, claro, cerveja ao fim do dia, Mark Smith (UK)-736 adora música de dança dos anos 90 e também Morrissey e Benjamin Clementine (que alívio!), Joakim Schaaf (SE)-743 consegue em cada dia muito mais do que julgava, Greg Kidd (US)-748 e Jun Hiraga (US)-751 são claramente geeks, vindos de S. Francisco, na Califórnia, investiram já numa empresa de tecnologia em Braga, Monica Glover (ZA)-739 é fortíssima e humilde, Luis Canto Moniz (PT)-752 e Rodrigo da Cunha (PT)-353 adotam o estilo “Cascais fim de tarde” à hora do jantar.

Mário Pedro Soares (PT)-26 voltará no ano que vem, David John Sudbury (CA)-701 tem sempre um elogio na ponta da língua (muito obrigada David!) e todos estamos ansiosos por saber o que Grant Harrison (NZ)-670, mais conhecido por “homem-melancia”, estará a preparar para a última etapa. Diversidade é o que faz o mundo perfeito. Isso e, claro, a tolice.

A 6ª etapa é plana e rápida, sendo praticamente impossível ultrapassar os atletas com handicap. As mulheres continuaram bastante fortes e só com enorme esforço Pedro Simas (PT)-296 alcançou Monica Glover (ZA)-739 e Jeannie Bomford (ZA)-765. Os três aproximavam-se juntos da meta fazendo antever uma emocionante chegada em trio. No entanto, no meio da vinha, Jeannie e Monica afastaram-se do trajeto por instantes e Pedro seguiu.

Cruzou então a meta às 14h12m47s, seguido de Jeannie às 14h13m21s e Mónica às 14h13m34s. José Lima de Almeida (PT)-756 chegou menos de três minutos depois. Os seguintes classificados foram Jorge Damas (PT)-245, Francisco Carneiro (PT)-262 e Ricardo Carvalho (PT)-319 (todos da equipa Europcar, tal como Pedro) e depois Andrej Rakow (ZA)-650, Manuel Melo (PT)-667, João Urbano Dias (BR)-718 (os três ex-aequo), seguidos de Martin Dreyer (ZA)-708 e Robert Watson (AU)-760 (ex-aequo).

Na classificação geral, os dez primeiros são Pedro Simas (PT)-296, Jeannie Bomford (ZA)-765, Manuel Melo (PT)-667, Ricardo Carvalho (PT)-319, José Lima de Almeida (PT)-756, João Urbano Dias (BR)-718, Monica Glover (ZA)-739, Francisco Carneiro (PT)-262, Jaco Ferreira (ZA)-703 e Martin Dreyer (ZA)-708. Jeannie está agora no segundo lugar, 11m53s à frente de Manuel. Ricardo está colado ao pescoço de Manuel, apenas a 21s deste.

A sétima etapa da TransPortugal Europcar Race 2017, de Albernoa a Monchique, com 136km e 2373m de elevação, marca a entrada no Algarve, o regresso à montanha e a primeira visão do mar. Sente-se já na boca o aroma a maresia, sonha-se com o mergulho da conquista. Os primeiros km fazem-se por entre as estevas, em terra vermelha, com caminhos ondulantes e a passagem pelas barragens de Monte da Rocha, Corte Brique e, finalmente, Santa Clara, com uma fantástica paisagem sobre a albufeira. O primeiro grande desafio do dia é a serra de Espinhaço de Cão, em subida fora de estrada até à Portela da Brejeira. Após uma descida alucinante, segue-se então a subida a Monchique, por estrada.

Seja qual for o caso, recordem se dos andares idiotas, dos sorrisos parvos e dos gestos sem sentido. Afinal de contas, não vale a pena levarmo-nos demasiado a sério.

Texto: Florbela Pires
Fotos: Pedro Cardoso

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